Isto é burla? O que se ganha mesmo com um avatar de IA, com números
Os números reais por trás dos avatares de IA: quanto se ganha, quantos falham, e os sinais de alerta que a DECO PROteste identifica em promessas de dinheiro fácil.
Rita Moreira
Última atualização em 14 de agosto de 2026 às 05:20
Não, criar um avatar de inteligência artificial não é burla. É uma actividade legítima com um mercado real. Burla é o que se vende à volta dela: promessas de rendimento garantido, números inventados e cursos que prometem resultados em semanas. A actividade é verdadeira, boa parte do discurso comercial não é.
Esta distinção importa mais do que parece, e é a razão de este artigo existir. Quem pergunta se é burla merece números, não entusiasmo.
Porque é que isto parece uma burla?
Porque tem todos os sinais exteriores de uma. Aparece em anúncios com carros e capturas de ecrã de rendimentos, promete dinheiro sem trabalho visível, e vende-se por valores baixos com contagens decrescentes.
A desconfiança é saudável e está bem calibrada. Em 2025, 77% dos portugueses foram alvo de pelo menos uma tentativa de burla online, mais 10% do que no ano anterior, e um em cada cinco dos que responderam perdeu dinheiro, segundo a DECO PROteste. Quem desconfia está a fazer aquilo que os dados recomendam.
Quais são os sinais de alerta a sério?
A DECO PROteste identifica dois que se aplicam quase sempre: promessas de ganhos elevados, em pouco tempo e sem risco, e pressão para decidir depressa. Acrescento um terceiro que é específico deste nicho: capturas de ecrã de rendimentos sem contexto nenhum, sem dizer há quanto tempo, com que audiência, ou em quantas tentativas falhadas.
Um número sem contexto não é informação. Um criador que mostra dez mil euros de receita mas não diz que levou dois anos e três personagens abandonadas pelo caminho não está a mentir, mas também não está a informar.
Quantas pessoas ganham mesmo dinheiro com isto?
Poucas, em proporção. E aqui tenho de ser honesta sobre os limites do que se sabe: não existe um estudo credível sobre a taxa de sucesso de quem tenta criar um avatar de IA. Qualquer percentagem que encontres é inventada, incluindo as que aparecem em artigos com ar sério.
O que se sabe é o comportamento geral de plataformas de criadores, que é fortemente desigual: uma minoria concentra a maioria da receita e a maior parte das contas fica perto de zero. Não há razão nenhuma para acreditar que este nicho seja diferente, e há uma razão para achar que é ainda mais desigual, que é a facilidade de entrada.
Então o mercado é real ou não?
É real e está a crescer, e essa é a outra metade da verdade.
O mercado global de influenciadores virtuais foi avaliado em 11,74 mil milhões de dólares em 2026, segundo a Grand View Research, embora as estimativas variem bastante entre consultoras, o que por si só recomenda cautela com qualquer número único. As campanhas com influenciadores virtuais registam 5,67% de taxa de envolvimento contra 1,89% dos criadores humanos, segundo a SQ Magazine de 2026.
Em Portugal, o marketing de influência movimentou cerca de 27 milhões de euros em 2025, com um crescimento de 54% em três anos, segundo o ECO. O mesmo jornal descreve os influenciadores virtuais como estando em fase embrionária no mercado português, com marcas de tecnologia, turismo e moda a dar os primeiros passos.
Embrionária é a palavra certa. Significa que há espaço, e significa também que ainda não há muito dinheiro à espera de quem chega.
Porque é que o mercado cresce e as pessoas falham na mesma?
Porque são duas coisas diferentes. O mercado crescer significa que há mais dinheiro a circular. Não significa que esteja distribuído por quem entra.
A facilidade de entrada é precisamente o que torna a saída difícil. Quando qualquer pessoa pode criar uma personagem numa tarde, o que escasseia deixa de ser a personagem e passa a ser a atenção de quem a veria. Milhares de perfis novos competem pelo mesmo espaço, e a esmagadora maioria não publica tempo suficiente para chegar a ser vista.
Esta é a parte que os anúncios omitem: o obstáculo não é técnico, é de mercado. E ao contrário do obstáculo técnico, não se resolve com uma ferramenta melhor.
Como verificar uma promessa antes de pagar seja o que for
Três perguntas que resolvem quase todos os casos.
Primeira: o número tem contexto? Um rendimento sem prazo, sem audiência e sem número de tentativas não é um número, é uma imagem. Se não disserem quanto tempo levou, assume que levou muito.
Segunda: existe garantia de devolução e está escrita? Não a garantia mencionada no anúncio, a que está na página de pagamento, com prazo. Se não estiver escrita onde se paga, não existe.
Terceira: os dados da página de pagamento batem certo? Neste nicho há dezenas de produtos com nomes quase idênticos, vendidos por pessoas diferentes e a preços diferentes. Confirma o nome do vendedor, o preço e o prazo da garantia na página onde vais pagar, e compara com aquilo que leste antes de lá chegar. Se algum dos três não bater, não é o mesmo produto.
Quanto ganha realmente quem consegue?
Depende inteiramente da via. Nas plataformas de subscrição, o criador fica com a receita menos a comissão, que no Fanvue é de 15%, valor a reconfirmar na plataforma antes de fazer contas. Nas parcerias com marcas, o valor depende da audiência e do nicho, e em Portugal ainda é raro.
Para dar uma referência de escala: o salário mediano em Portugal situa-se entre 1.000 e 1.050 euros por mês, segundo o INE. Chegar a esse valor com um avatar de IA é possível e é raro. Ganhar cem euros no primeiro semestre é muito mais provável do que ganhar mil.
Há casos verificáveis em Portugal?
Há, e é o argumento mais forte contra a tese da burla, porque é verificável por qualquer pessoa em dois minutos.
A Olívia C é uma influenciadora portuguesa gerada por inteligência artificial, criada em 2024 pelo estúdio Falamusa. Ficou em terceiro lugar no primeiro concurso Miss IA e ultrapassou os 15 mil seguidores em pouco mais de um ano, segundo o NiT. Não é um número de anúncio, é uma conta pública que se pode abrir e ver.
Repara no que este caso diz e no que não diz. Diz que a coisa funciona e que marcas portuguesas já trabalham com personagens geradas. Não diz que uma pessoa sozinha, sem estúdio e sem equipa, chega ao mesmo sítio no mesmo tempo.
O que é verdade e o que é exagero
Verdade: a tecnologia funciona, é acessível, e existem casos documentados de pessoas a ganhar dinheiro. Verdade: não é preciso mostrar a cara nem ter equipamento. Verdade: em Portugal há inclusive uma influenciadora de IA a trabalhar com marcas, e escrevi sobre ela em este artigo.
Exagero: que é rápido. Exagero: que é passivo. Exagero: que qualquer pessoa consegue. Mentira: qualquer valor específico prometido a quem ainda não começou.
Então vale a pena tentar?
Vale, com duas condições. A primeira é entrares com dinheiro que possas perder, e a boa notícia é que esse valor é baixo, como mostro em quanto custa isto em euros. A segunda é entrares com um horizonte de meses, não de semanas.
Se alguém te disser um número de rendimento antes de saber o teu nicho, a tua audiência e o teu tempo disponível, essa pessoa está a vender, não a informar. Isso inclui-me a mim, e é por isso que não vais encontrar nenhuma promessa de valores neste site.
Perguntas Frequentes
Criar um avatar de IA é burla?
- Não. É uma actividade legítima com um mercado real e em crescimento. O que costuma ser enganoso é o discurso comercial à volta dela: promessas de rendimento garantido, números sem contexto e prazos irrealistas.
Quantas pessoas ganham mesmo dinheiro com avatares de IA?
- Não existe nenhum estudo credível sobre a taxa de sucesso, e qualquer percentagem que encontres é inventada. O que se sabe é que plataformas de criadores são fortemente desiguais, com uma minoria a concentrar a maioria da receita.
Quais são os sinais de que estou perante uma burla?
- A DECO PROteste aponta as promessas de ganhos elevados, em pouco tempo e sem risco, e a pressão para decidir depressa. Neste nicho acrescenta-se um terceiro: capturas de ecrã de rendimentos sem dizer há quanto tempo, com que audiência e após quantas tentativas falhadas.
O mercado de influenciadores virtuais é real?
- É. Foi avaliado em 11,74 mil milhões de dólares em 2026 pela Grand View Research, e em Portugal o marketing de influência movimentou cerca de 27 milhões de euros em 2025, segundo o ECO. O mesmo jornal descreve os influenciadores virtuais como estando em fase embrionária no país.
Quanto se ganha realmente no primeiro semestre?
- Ganhar cem euros no primeiro semestre é muito mais provável do que ganhar mil. Como referência de escala, o salário mediano em Portugal situa-se entre 1.000 e 1.050 euros por mês, segundo o INE, e chegar a esse valor com um avatar de IA é possível mas raro.
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